PLANTÃO

CRÍTICA | IT: Capítulo 2


Após exatamente dois anos desde que o remake de IT: A Coisa chegou aos cinemas, sua sequência ganha espaço, com mais de 2 horas e 40 minutos, nas telonas.

IT: Capítulo 2 se inicia com sua cena mais horrenda. No entanto, a presença do monstruoso palhaço Pennywise (Bill Skarsgård) é mínima neste trecho: o horror maior encontra-se na superfície da cidadezinha de Derry, Maine, quando um casal de homossexuais é agredido a socos e pontapés em um local não muito distante de um iluminado parque de diversões. A conclusão desta cena traz o palhaço ao primeiro plano e como já era de se esperar, Pennywise acaba devorando o pobre jovem homossexual na frente de seu namorado.

Enquanto a primeira parte, lançada nos cinemas em setembro de 2017, da adaptação conduzida por Andy Muschietti havia explorado, ainda que mais discretamente, tópicos controversos em sua construção do espaço de Derry, em IT: Capítulo 2 o cineasta e o roteirista Gary Dauberman (mesmo do preguiçoso Annabelle 3) mergulham de cabeça nos aspectos problemáticos da cidade para enfatizar, com bom efeito, a relação dúbia que os Perdedores agora adultos têm com sua terra natal.


A história tem início 27 anos após os acontecimentos do primeiro filme, quando o palhaço Pennywise desperta de seu longo sono e começa a se alimentar novamente. Após um assassinato com uma conclusão estranha, Mike Hanlon (Isaiah Mustafa) precisa chamar seus antigos amigos, Bill (James McAvoy), Eddie Kaspbrak (James Ransone), Richie (Bill Hader), Beverly (Jessica Chastain), Ben (Jay Ryan), e Stanley Uris (Andy Bean), para acabar de vez com a terrível entidade que quase os matou quando crianças.

Aliás, o elenco não poderia ser melhor. Além de se parecerem fisicamente com as crianças do primeiro filme, existe um claro cuidado em representar perfeitamente todas as nuances e até expressões corporais dos jovens atores. Esse cuidado, tanto da direção quanto do próprio elenco, é o que traz uma enorme imersão que nos faz quase acreditar que aquelas pessoas realmente são as crianças do Clube dos Otários agora crescidas.


Essa conexão entre passado e presente é mostrada em tela em diversas situações. O filme transita em momentos que os adultos se veem sozinhos e, impotentes, se enxergam como crianças novamente. As mudanças acontecem com um inteligente uso da fotografia, investe em plongées e contra-plongées para mudar a perspectiva e apresentar os adultos de um ângulo que sugere impotência frente ao mal que os persegue, logo passa a ser natural enxergá-los como crianças.

No entanto, como as memórias nebulosas de seus protagonistas, IT: Capítulo 2 lida com sua própria dificuldade de recobrar a experiência anterior, mesmo que chegue apenas dois anos após sua estreia. Como grande parte do Capítulo Dois, e com isso digo mais da metade de sua duração, se dedica a cada um dos Perdedores relembrando experiências passadas, as inserções de flashbacks tornam-se constantes ao ponto da redundância, seja recapitulando eventos ocorridos no Capítulo 1 ou trechos que ficaram de fora e inevitavelmente tiveram de ser incluídos aqui.

Toda essa (re)construção de personagens é fundamental para que o roteiro consiga desenvolver o tipo de terror proposto aqui. Não se espera causar medo através do óbvio, mas sim a partir de traumas internos, que foram apresentados no primeiro filme (e construídos durante a infância). Assim, como em uma sessão de terapia, vencer Pennywise depende apenas dos amigos conseguirem confrontar seus medos internos. E, novamente, isso é feito através da amizade. Essa conexão torna o projeto mais coeso, sendo fácil enxergar um único filme, mesmo que dividido em duas partes.


Bill Skarsgård continua brilhando como o palhaço Pennywise, a Coisa. Sua interpretação desperta diversos tipos de sentimentos, do pretendido medo à admiração por sua total entrega ao personagem. E neste filme vemos a criatura de uma forma um pouco diferente do primeiro, pois ele demonstra um inédito sentimento de vingança para com o Clube dos Otários após sua derrota 27 anos atrás.

A conclusão em IT: Capítulo 2 é um filme ousado, justamente por investir mais no complexo conceito criado para o livro. Como uma obra de terror, busca se desprender dos clichês do gênero, partindo para uma abordagem própria e inteligente. No que se refere à obra original de Stephen King, o filme permanece bastante fiel, mas toma algumas liberdades criativas que funcionam melhor para a linguagem cinematográfica. Além disso, assim como o primeiro filme, oferece um entretenimento de qualidade dentro do gênero do terror, que ao longo dos anos foi se tornando cada vez menos focado em apresentar boas histórias.


NOTA: 9/10

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