PLANTÃO

CRÍTICA | Coringa (COM spoilers)


No início de Coringa, Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) está se maquiando enquanto o áudio de notícias sobre crimes toma conta daquela apresentação. Em close, a personagem de Phoenix esboça um sorriso forçado e segura com os dedos os músculos do rosto, alargando uma expressão de felicidade. Na sequência, ao mesmo tempo em que solta o sorriso e retorna ao seu sentimento de deslocamento do mundo, ele deixa rolar uma lágrima, que desce enlameada pela maquiagem.

A partir de então, o roteiro de Todd Phillips (Cães de Guerra) e Scott Silver (O Vencedor) inicia uma exploração mais didática, no melhor sentido da palavra, sobre o rompimento da casca desse ovo. Isso é tão bem explorado que, simultaneamente, existe a possibilidade de sentir empatia por um homem claramente com problemas (como revelado na dita abertura) quando ele é espancado por um grupo de adolescentes e perceber que há também o obstáculo de segurar esse sentimento pelo simples fato de saber que se trata, afinal de contas, de um vilão.

A excelência da atuação de Joaquim Phoenix reflete todo esse peso da injustiça no personagem. Sua aparência é quase cadavérica, com magreza que incomoda e também sugere como ele vive. Com os ombros caídos e olhar para o chão, Arthur fala com timidez e em tom de voz passivo e subserviente. Carrega no corpo traumas físicos de um padrasto abusivo – é difícil não imaginar que os danos cerebrais que sofrera na infância não foram frutos disso – e uma mãe permissiva, ambos sintomas da desigualdade social. A paleta azulada reforça a melancolia depressiva do palhaço. Em pouco tempo em tela, Phoenix estabelece o passado e o presente do personagem, mas também sugere o futuro e antecipa seu estado final – não há qualquer necessidade de mistério quanto a isso, afinal. A expressão corporal que Phoenix cria para o personagem é completa e estranha. É interessante notar, por exemplo, como ele usa as mãos para controlar as pernas que começam a se mover ansiosamente e, após o declínio total do personagem, ele afasta as mãos das pernas o mais longe que pode para deixá-las moverem-se freneticamente.


Coringa pode ser dividido em três atos distintos onde o protagonista vai se entregando à insanidade. No primeiro, conhecemos seu alter ego, Arthur Fleck, um homem com problemas psicológicos que tenta contornar isso levando uma vida comum nutrindo o sonho de ser um comediante. As cenas da consulta com a assistente social e da gargalhada descontrolada no ônibus mostram que de fato sua mente não é sã. Após perder o emprego e ser espancado novamente, ele chega ao limite e enfim comete seus primeiros assassinatos.

A partir da morte dos três jovens, o caos começa a tomar forma na cidade e a imagem de um palhaço se torna um símbolo de resistência. Mesmo que Arthur ainda não assuma publicamente, matar aqueles rapazes lhe fez bem. Esse sentimento não dura por muito tempo, já que ele é hostilizado por Thomas Wayne (Brett Cullen) e logo em seguida comprova a doença mental da própria mãe. Os maus tratos que ele sofreu na infância são um indício de onde vieram seus distúrbios e a origem da risada convulsiva que se tornaria sua marca registrada. Aliado a isso, descobrimos que o romance que ele mantinha com a vizinha, Sophie (Zazie Beetz), era uma ilusão. Tal revelação dá uma nova dimensão aos problemas do protagonista; ele foge da sua realidade se escondendo em devaneios e mentiras ditas a si mesmo. O divisor de águas é o momento em que Arthur mata a própria mãe no hospital. Ali foi o fim de qualquer limite moral que ele poderia ter.


O último ato é sua aceitação de como é de verdade. Ele assume o papel do Coringa muito antes de pedir que o apresentador Murray Franklin (Robert De Niro) o apresente assim, quando o seu pudor para tirar a vida de outra pessoa deixa de existir. É nessa hora que presenciamos a performance memorável de Joaquin Phoenix encarnando o vilão completo, dançando e debochando da cara de qualquer autoridade. O discurso poderoso que ele faz na entrevista com Murray é um tapa na cara de muita gente e é impossível não dar razão às coisas que o Joker diz. Talvez esse seja o motivo para as preocupações sobre o filme estimular ações violentas, mas temos de convir que o personagem apresenta um desequilíbrio mental evidente; então é de se supor que uma pessoa sadia tenha o discernimento necessário para não ultrapassar certos limites.

A cena final da película gera uma teoria muito plausível de que tudo não passou de um devaneio de Arthur enquanto ele estava internado no Asilo Arkham. Vemos o Palhaço do Crime sentado em frente a uma terapeuta, de cara limpa e sem machucados, rindo de alguma piada que ele lembrou. Quando a mulher pede que ele lhe conte a piada, Arthur simplesmente responde que ela não entenderia. Isso levanta a questão sobre ter sido tudo real ou apenas mais um delírio, como no caso do namoro com a vizinha.


Outro tópico discutível diz respeito ao valor simbólico que o Coringa representa. Arthur Fleck é um alter ego criado para o filme apenas, sendo que nos quadrinhos o personagem já teve nomes e origens diferentes. Então fica a pergunta se este é o Coringa definitivo ou então o precursor de uma alegoria que representa o caos e a anarquia, como a série Gotham já havia explorado.

Coringa é um filme agressivo, deturpado e misterioso, afinal ele é guiado através da perspectiva de Arthur, que é um narrador não confiável, convenhamos. Na sua conclusão, a fotografia enaltece a chegada definitiva do vilão, que vira um herói para a população marginalizada. Ele se ergue ao som de palmas e desenha seu sorriso com sangue, simbolizando a entrega total. Após matar uma psicóloga no Asilo Arkham – deixando pegadas de sangue, que detalhe! –, ele anda leve e dança em direção ao sol poente que ilumina as paredes brancas do local, sendo o único momento do filme com fotografia leve e luz abundante.


NOTA: 9.5/10

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