PLANTÃO

CRÍTICA | Coringa (SEM spoilers)


Coringa não inicia de acordo com o protocolo, trazendo logos voadores da DC Comics junto com músicas épicas que antecedem um espetáculo. Essa é a primeira de tantas mensagens passadas durante as duas horas de projeção: você não está diante de um filme de herói, muito menos de vilão.

O longa apresenta Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um homem solitário e deprimido que mora com a mãe, trabalha em um subemprego como palhaço de rua e enfrenta diversos problemas de saúde mental, como crises de riso incontroláveis por conta de traumas na infância dos quais não se lembra. Ele sonha em ser comediante um dia e participar do talk show do apresentador Murray Franklin (Robert DeNiro), enquanto sua mãe envia cartas e mais cartas pedindo ajuda ao magnata da cidade de Gothan Thomas Wayne, na esperança de que ela e Arthur possam ter uma vida melhor.

Desde que foi anunciado, Coringa despertou comparações com O Rei da Comédia, em virtude do envolvimento de Scorsese nos estágios iniciais, atuando como produtor (posto que deixou para se dedicar a O Irlandês), da presença de De Niro, interpretando o anfitrião de um talk show, e, principalmente, da premissa. De fato, o roteiro assinado por Scott Silver, em parceria com o diretor Todd Phillips, bebe mais na fonte do longa dos anos 1980 do que no universo dos quadrinhos.


Quanto à direção, Todd Phillips repete a melhor estratégia da película de 1982: embaralhar as fronteiras entre real e imaginário, filmando os delírios do protagonista sem diferenciá-los dos demais acontecimentos. Todavia, o cineasta acaba insultando a inteligência do espectador em um momento-chave, ao incluir um desnecessário e anticlimático flashback explicativo logo após uma reviravolta no enredo ser revelada com absoluta clareza.

Assim como qualquer outro filme, Coringa está inserido em um contexto político, social e histórico. Ao colocar um vilão, o principal nêmesis do Batman, sob os holofotes e contar uma possível história de origem sobre o palhaço do crime, é preciso cuidado, ainda mais se ele se tornará o que é por consequência de uma vida repleta de abusos. E o cuidado é justamente em deixar claro que nada justifica a violência, não há desculpas para matar pessoas para chamar a atenção e se sentir alguém uma vez na vida. O filme não é para ser um manual de como os injustiçados podem conseguir vingança. E sim sobre como não há como defender a violência. Sobre como não dá para pegar leve com o ódio desenfreado.


O longa ostenta o selo da DC e faz menções à mitologia do Cavaleiro das Trevas, mas isso é praticamente incidental. A Gotham imunda e com altos índices de criminalidade nada mais é do que uma representação da Nova York decadente das décadas de 1970 e 80.

Por fim, o que Coringa faz é resgatar, com muita propriedade, um tipo de abordagem sobre o qual grandes cineastas da contracultura — incluindo, é claro, Scorsese — se debruçaram e que ultimamente andava relegado ao segmento independente: o estudo de personagem. O longa mergulha de cabeça na psique de um ser humano problemático e sem limites, às vezes até demais. Mas entrega um longa que faz jus ao protagonista: problemático, perturbado, sem limites e catártico.


NOTA: 9.5/10

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